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O Que é o Evangelho?

Daniel Santos

Daniel Santos

Sábado, 22 Julho 2017 17:27

Quebrando a cabeça com os filhos

Por que a criação de filhos é sempre um quebra-cabeça? Quando lemos as instruções no livro de Provérbios, nas partes que tratam do modo como devemos lidar com nossos filhos, a linguagem adotada parece muito branda. Já no primeiro capítulo, ao lermos sobre os pais advertindo o filho quanto aos perigos de acompanhar amigos com planos violentos e homicidas, não há uma advertência veemente dizendo “não vai sair com eles, ponto final!”. Pelo contrário, após descrever uma situação perigosíssima, uma breve palavra fecha a advertência nos seguintes termos: “Filho meu, se os pecadores querem seduzir-te, não o consintas” (1.10). No capítulo seguinte, o qual tratará do homem perverso e da sedução enganosa da mulher adúltera, as advertências são igualmente brandas: “Filho meu, se aceitares as minhas palavras…” (1.1), “se clamares por inteligência…” (1.3), “se buscares a sabedoria…” (1.4). Não seria o caso de optar por uma abordagem mais direta e firme? Por exemplo: Filho meu, você tem que aceitar as minhas palavras! Você tem que clamar por inteligência e sabedoria! Não seria muito mais simples se usássemos esse tipo de advertência?

Essa não parece ser a abordagem adotada em Provérbios. O motivo para isso, muitos dizem, é que essas instruções são “apenas provérbios”. Esse argumento não se sustenta. Veja o modo como o autor aos Hebreus trata o conteúdo de Provérbios: “Estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe” (Hebreus 12:5–6; compare Provérbios 3.11-2). Para o autor de Hebreus, o conteúdo do livro de Provérbios não é “apenas provérbio”, mas exortação e correção que vem do Senhor. Assim sendo, não há como descartarmos o modo de abordagem adotada no livro como mera opinião. O livro de Provérbios é palavra de Deus e contém exortações e correções que procedem dele.

Bem, se esse argumento não se sustenta, como entender a abordagem branda do livro? O caminho para compreendermos o motivo começa com a convicção de que os pais nos dias do Antigo Testamento eram constantemente confrontados com a dura realidade de se sentirem impotentes diante dos conflitos. É precisamente esta convicção, de que a instrução dos filhos não é uma tarefa simples, que nos coloca numa posição semelhante à deles. Consequentemente, tal semelhança nos possibilita aprender e aplicar as instruções de Provérbios para nosso contexto atual.

Li recentemente uma ilustração muito boa para explicar a complexidade da tarefa de criar filhos. O autor (Tim Kimmel, Grace based parenting) ilustra a criação de filhos com o desafio de montar um quebra-cabeça de 1500 peças. Mas não apenas isso. É um quebra-cabeça com três peculiaridades: 1) ele não tem as peças das bordas, 2) ele não tem mais a caixa que mostra a imagem que estamos tentando formar e 3) há algumas peças de outros quebra-cabeças que foram misturadas no meio das peças. Qual o significado disso?

As peças das bordas

Geralmente começamos a montar um quebra-cabeça pelas bordas, pois as peças nos ajudam delimitar até onde iremos e os limites do que estamos construindo. Na criação dos filhos, as peças das bordas não existem porque não sabemos com certeza a extensão do que estamos construindo na vida de nossos filhos. Muitas vezes Deus usa outras pessoas para instruir e advertir nossos filhos de um modo que nunca imaginávamos. Quando essas coisas acontecem, a vida deles parece expandir para horizontes que nunca tínhamos pensado. Não ter as peças das bordas não significa criar filhos sem limites. Isso é um erro. Criar filhos reconhecendo que não temos todas essas peças significa ter a humildade de aceitar que não cabe somente a nós estabelecer os limites daquilo que nossos filhos serão. Deus é quem os criou e é também o responsável final pelo que lhes sucederá. Nós pais temos o privilégio de cooperar, com o pouco que sabemos e podemos, nesse projeto ambicioso que é, originalmente, um projeto de Deus.

A caixa do quebra-cabeça

A primeira coisa que fazemos ao iniciar uma montagem de quebra-cabeça é colocar a tampa da caixa em pé para visualizar a imagem, enquanto tentamos ajuntar as peças. Muitas vezes, é a imagem impressa na caixa que nos orienta para sabermos onde está o céu, o lago, as árvores etc. Se estamos no local onde sabemos ser o céu, não iremos tentar colocar peças que contenham folhas das árvores. Em algumas fases na vida de nossos filhos ficamos contentes com a relativa facilidade com que conseguimos montar as peças. Tudo parece fluir tão bem. As peças se encaixam. A imagem que vai se formando fica cada vez mais clara, o nosso trabalho se torna cada vez mais óbvio.

Entretanto, as coisas não serão sempre assim. Mais cedo ou mais tarde chegaremos ao ponto onde a imagem sendo formada no quebra-cabeça não será tão óbvia como foi antes. Quando esse dia chegar, teremos que decidir entre duas opções: 1) continuarmos construindo o quebra-cabeça conforme a imagem que tínhamos em mente e vinha dando certo, ou 2) aceitarmos com humildade a nossa incapacidade de ver ou imaginar o restante da imagem sendo formada no quebra-cabeça. Aqueles que adotam a primeira opção estão, inconscientemente, negando uma verdade simples: não há como saber com precisão a imagem final daquilo que Deus está construindo. A vida é cheia de surpresas. Podemos e devemos nos esforçar ao máximo para oferecer sempre o melhor aos nossos filhos. Mesmo assim, isso não altera a realidade que não conhecemos a imagem final do quebra-cabeça.

Aqueles que adotam a segunda opção são os que buscam ajuda com os que já viram o que Deus fez mais adiante na vida de seus filhos. A ajuda que buscamos não é para continuarmos o que já vínhamos construindo, mas para construir algo que não tínhamos ainda visualizado. Quando medito nessas coisas lembro-me da história de José, filho de Jacó. Muito do que o pai sonhava para seu filho podia ser simbolizado naquela túnica colorida que ele fez. Todavia, a imagem final do que Deus estava fazendo ia muito além do que José ou seu pai conseguiam imaginar. Não sei quantos se lembram dos detalhes dessa história. Embora a versão que foi contada para Jacó fosse uma mentira formulada pelos irmãos de José, a sua reação parece indicar que ele adotou a primeira das duas opções mencionadas no parágrafo anterior. O relato de Gênesis nos diz que ele se recusou ser consolado dizendo – chorando, descerei até o meu filho à sepultura- (Gênesis 37.35).

Novamente, a versão que lhe foi contada era uma mentira, mas isso não justifica a sua atitude. E se fosse a verdade, será que ele teria reagido diferentemente? Creio que não. O que impedia Jacó de aceitar o consolo? Não era apenas a morte do filho, mas o fim de uma grande imagem que ele havia começado a construir no quebra-cabeça. Digo isso por causa de um motivo simples. Quando, finalmente, os irmãos começaram a contar o paradeiro de José e a história inacreditável associada a isso, Jacó disse: “Basta! Ainda vive o meu filho José; irei e o verei antes que eu morra”(Gênesis 45.28). A imagem das carruagens enviadas por Faraó para trazer a família de José para o Egito era algo que nunca fez parte daquilo que Jacó tinha em mente, enquanto montava as primeiras peças do quebra-cabeça. Quando viu a imagem maior formada no quebra-cabeça da vida de José, a narrativa nos diz que o espírito de Jacó se reviveu (Gênesis 45.27). O sonho de Jacó prefigurado naquela túnica não era suficiente para ilustrar tudo o que Deus ainda faria na vida do seu filho.

E quando a imagem do quebra-cabeça não termina tão bem como a de José? Sempre que preciso responder a esse tipo de pergunta, o meu ponto de partida é a história de Jacó e José. A primeira coisa que penso é: não é fácil saber quando o quebra-cabeça terminou. Jacó achou que tinha chegado ao fim, mas era apenas o começo. A segunda coisa que penso é: nem sempre a imagem final do quebra-cabeça mostrará nossos filhos como soberanos no trono do Egito. Se conseguirmos vê-los caminhando em direção ao Senhor, estejamos satisfeitos.

As peças que não pertencem ao quebra-cabeça

As peças estranhas, segundo o autor dessa ilustração, são as opiniões dos outros. Todos parecem saber mais sobre o que estamos fazendo do que nós mesmos. Todos oferecem opiniões sobre como devemos agir. E as opiniões não são dadas apenas a nós, mas também aos nossos filhos. O curioso é que essas pessoas que dão seus palpites parecem conhecer a imagem estampada na caixa do quebra-cabeça. Aí está uma verdade que posso afirmar sem medo de errar: ninguém sabe o que acontecerá com nossos filhos. Portanto, não se desespere nem desanime ao descobrir que algumas “peças” não vão se encaixar na vida deles. Não há nada de errado com eles. Não há nada de errado com as peças, pois elas poderiam se encaixar perfeitamente em outros quebra-cabeças. O erro consiste em querer encaixar peças estranhas no quebra-cabeça da vida de nossos filhos.

Quando penso nesse exemplo oferecido pelo autor, começo a entender que a linguagem utilizada em Provérbios não é branda ou sem objetividade, mas sim uma linguagem consciente de que somos cooperadores num projeto que não é nosso. Os pais que ensinam o “filho meu” em Provérbios não colocam as suas palavras como a última regra, mas entendem que os filhos devem também buscar a sabedoria que vai além daquilo que os pais sabem. Veja um exemplo de quando a sabedoria dos pais é colocada abaixo da sabedoria de Deus: “Filho meu, se aceitares as minhas palavras (isto é, palavras dos pais) e esconderes contigo os meus mandamentos (isto é, dos pais), para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido e para inclinares o coração ao entendimento”(Provérbios 2.1-2). Veja, então, que mesmo podendo estabelecer mandamentos para seus filhos, aqueles pais preparavam o caminho para que eles buscassem a sabedoria e o entendimento que iam além do que eles seriam capazes de ensinar. Isso exige humildade.

Veja bem, eu não quero com isso dizer que os pais não possam estipular regras para seus filhos e cuidar para que elas sejam seguidas. Muitas dessas regras, como bem sabemos, refletem o amor dos pais e visam o bem dos filhos. Todavia, qualquer regra que possamos criar para a instrução dos nossos filhos não está acima da instrução da Palavra de Deus. As palavras dos pais, mesmo quando embasadas na Bíblia, não têm a mesma autoridade da própria Bíblia, mas, como lemos em Provérbios 2.1-2, elas preparam os filhos para estarem atentos à autoridade final que procede de Deus.

Para mim, um dos maiores exemplos disso é a solução dada para o filho rebelde na lei de Moisés. Em Deuteronômio 21.18-21 lemos sobre a sentença aplicada aos filhos que não obedecem à voz de seu pai e à de sua mãe e, ainda castigado, não lhes dá ouvidos. A instrução era para que o pai e a mãe tomassem o filho pelas mãos e o levassem aos anciãos à porta da cidade, os quais o apedrejariam. Uma decisão tão importante e dramática como esta não poderia ser tomada somente com as regras dos pais, mas devia ser submetida aos sábios e juízes do povo de Deus.

 

Conclusão

Por fim, não existe um remédio para todos os males quando o assunto é criação de filhos. Aliás, alguns males, como o exemplo acima, não tinham remédio. O que realmente deve nos consolar são as seguintes verdades: 1) Pais e filhos são igualmente caídos e carentes da graça de Deus, ambos podem estar errados; 2) Deus está trabalhando na vida de nossos filhos por meio do seu Espírito, esse é o maior motivo do sucesso; 3) Deus não espera que assumamos sozinhos a tarefa de instrução dos nossos filhos, o corpo de Cristo cumpre um papel determinante nas maiores decisões que tomamos; 4) a imagem sendo construída na vida de nossos filhos aponta para um plano  não nosso, mas de Deus.

Terça, 07 Junho 2016 17:23

Uma “pegadinha” para testar Moisés

O que seria necessário para chamar a atenção de uma pessoa como Moisés? Ele era um homem com mais de setenta anos, tendo já a experiência de viver no contexto humilde dos escravos hebreus, no Egito; no palácio, como o filho da princesa do Egito e, finalmente, experimentava uma vida de pastor de ovelhas numa terra estranha, Midiã. Essa última fase de sua vida, deveu-se ao fato de ter matado um egípcio, precisando, então, de um asilo político no país vizinho.

O relato do primeiro encontro de Moisés com o Senhor é apresentado na narrativa de Êxodo a partir da visão da sarça que ardia e não se consumia. Ora, Moisés não era o tipo de pessoa que se impressionaria com qualquer coisa, era preciso algo contundente para despertar nele o interesse de aproximar e verificar o que exatamente estava acontecendo. Este é o princípio básico de uma pegadinha, atrair a atenção e envolvimento de alguém para uma cena que revelará, mais tarde, ter outro significado. Uma boa pegadinha não pode ser muito exagerada, sob pena de tornar-se óbvia; nem muito disfarçada, sob pena de perder seu poder de atração. Com isso em mente, pense na situação de Moisés: como chamar a atenção de um homem como ele? O que ele viu não teria nenhuma ligação direta com a mensagem que ele receberia. Deus poderia, se quisesse, simplesmente aparecer a Moisés e iniciar o diálogo. Foi assim com os patriarcas no passado; ele se apresentou a alguns deles em forma bastante pessoal, como foi o caso da visita do Senhor a Abraão nos carvalhais de Manre (Gn 18-19). Naquele contexto, o Senhor escolheu assumir a forma humana, juntamente com dois anjos que também assumiram a forma humana, e os três se aproximaram do patriarca Abraão. A narrativa bíblica nos diz que Abraão teve uma atitude semelhante à de Moisés diante da visitação do Senhor: Olhou, aproximou-se e prostrou-se (Gn 18.2). No caso de Abraão, o elemento responsável por capturar a atenção do observador foi a surpresa da visita, já que a identidade dos visitantes não foi revelada nem percebida por Abraão antes de um longo período de comunhão. Por que, então, o Senhor resolveu armar esta “pegadinha” para atrair a atenção de Moisés?

1. Deus queria testar a atenção de Moisés

Ao contrário do que aconteceu com Abraão, a manifestação de Deus foi extremamente sutil. Moisés estava acostumado a ver fogo, a ver uma sarça pegando fogo, mas ele nunca tinha visto uma sarça pegando fogo sem ser consumida. A primeira ação de Deus, então, foi um teste da atenção de Moisés. Até que ponto Moisés conseguiria perceber a natureza misteriosa daquela visão? Observe que o elemento responsável por capturar a atenção não foi nem o anjo do Senhor (que apareceu no meio da chama) nem o fogo, propriamente dito, mas o fato da chama não afetar a folhagem daquele arbusto. Embora o texto afirme ser o Senhor quem estava aparecendo no meio da sarça, o desenrolar na narrativa mostra que Moisés não percebeu isso imediatamente (reação semelhante à de Abraão). Moisés ficou impressionado com a cena e resolveu aproximar-se para investigar mais de perto. A justificativa, por trás de sua decisão de aproximar-se do fenômeno que ele possivelmente já vinha observando há algum tempo, é resumida na seguinte pergunta: “por que a sarça não se queima?” (Êx 3.1). Obviamente, a distância inicial não despertou em Moisés a hipótese de ser aquilo uma manifestação divina. Sua motivação inicial foi a verificação desse aparente mistério que quebrava a monotonia e a rotina diária de um pastor de ovelhas nas regiões do deserto do Sinai. O Senhor teve até que o proibir de chegar muito perto. Assim sendo, Moisés passou no teste de atenção. O que Deus precisaria para testar a sua atenção hoje?

II. Deus queria testar a devoção de Moisés

Após ter sido informado de que o fenômeno se tratava de uma aparição divina do Deus de seus pais, Moisés esconde o seu rosto imediatamente, temendo as consequências de ver o Deus de Abraão, Isaque e Jacó face a face. Dá-se aqui o início de um grande relacionamento que deveria crescer muito, porém vagarosamente, ao ponto de Moisés ser referido, quarenta anos depois, como aquele com quem o Senhor falava face a face, como alguém falando com seu amigo (Êx 33.11). É curioso, então, que a visão que Moisés teve do Senhor no meio da sarça tenha marcado o início de um relacionamento profundo e duradouro, mesmo não tendo sido uma visão em forma humana, como foi no caso de Abraão.

As primeiras instruções que Moisés recebeu ao aproximar-se da sarça deixaram claro que o fenômeno em si era apenas uma maneira de captar a sua atenção. O Senhor começou a lhe falar do meio da sarça, ou seja, por meio do anjo do Senhor que estava no meio da chama, e o foco de interesse da narrativa muda imediatamente para outra dimensão (3.4-5). A narrativa bíblica não tem qualquer interesse em responder a pergunta inicial de Moisés: “por que a sarça não se consumia?”, muito menos justificar a aparição do anjo do Senhor no meio da chama. O foco de interesse, agora, é a santidade daquele que está falando por meio do anjo do Senhor no meio do fogo, daí a proibição de se aproximar demais. Podemos afirmar, diante disso, que Moisés passou também no teste da devoção; ele respondeu prontamente à instrução daquele que se apresentou como o Deus dos patriarcas. Uma reação possível seria a de incredulidade, como foi o caso de Manoá (Juízes 13) e Zacarias, pai de João Batista (Lucas 1.20).

III. Deus queria testar a tradição de Moisés

Eu sou o Deus de vossos pais (Êx 3.6). Para uma pessoa que foi criada por uma mãe hebreia e, posteriormente, adotada por uma egípcia; a expressão “vossos pais” ganha um novo elemento atrativo. Será que, após o período de convivência com a cultura e a tradição egípcia da sua mãe adotiva, Moisés ainda retinha a tradição religiosa de sua mãe hebreia? Com essa simples frase, o Senhor se apresenta como o Deus que guiou os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó e que com eles fez aliança. A referência aos patriarcas não tem a finalidade de ajudar Moisés a se lembrar de quem estava falando, mas, sim, de estabelecer uma conexão necessária e inevitável entre a era abraâmica e a mosaica. Essa conexão é necessária porque o diálogo a seguir poderia ser interpretado de um ponto de vista puramente humano e horizontal, se não tivéssemos essa pequena, porém profunda, apresentação do Senhor. A identificação do Deus de Israel como alguém distinto criou a atmosfera de um diálogo entre duas pessoas; Moisés não estava delirando ou tendo alucinações, no forte calor do deserto, mas, sim, participando de um verdadeiro diálogo entre dois seres pessoais. Na verdade, essa característica se tornou um marco distintivo do Deus de Israel como alguém que fala com os seres humanos, com voz de seres humanos (Dt 5.4, 22).

Além disso, o Deus que se apresenta demonstrou interesse pelo povo hebreu e não pelo egípcio: “Eis que tenho visto a aflição do meu povo” (Êx 3.7-9). Nesses três versos, o Senhor deixa bem claro que ele havia acompanhado de perto a situação dos hebreus no Egito. Ele garante a Moisés que o clamor dos hebreus (3.7) e a sua aflição por causa dos seus opressores (3.8) não tinham passado despercebidos. A pergunta que comumente tem sido feita nesse trecho da narrativa é o que exatamente motivou a descida do Senhor para livrar o seu povo, Israel. Teria sido o sofrimento do seu povo, a opressão praticada pelos egípcios, ou o clamor que foi levantado? As três situações estão, de certo modo, associadas, mas o motivo apresentado na narrativa precisa ser distinguido claramente. A afirmação, “pois, agora o clamor dos Israelitas chegou a mim” (3.9), parece ser o ponto decisivo quando Deus resolveu agir. Doutra sorte, pareceria que o Senhor havia ouvido e visto o sofrimento e o clamor do seu povo por tanto tempo e só agora resolveu tomar uma atitude.

A escravidão e opressão do povo precisam ser entendidas do ponto de vista já mencionado, isto é, da perspectiva da promessa abraâmica. Segundo o relato de Gênesis 15, o Senhor foi enfático a respeito do futuro da descendência de Abraão: “Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida a escravidão, e será afligida por quatrocentos anos” (15.13). Nesse texto, encontramos os dois termos utilizados no relato de Êxodo: escravidão e aflição. Se olharmos então para o relato de Êxodo 3 da perspectiva de Gn 15.13-16, a decisão de Deus de agir em favor do seu povo representa o início do cumprimento dos eventos escatológicos prometidos ao patriarca Abraão, pois ele já sabia que após quatrocentos anos o povo sairia do cativeiro. A correlação entre os eventos do êxodo e a promessa abraâmica é indubitavelmente confirmada pelo próprio narrador em Êxodo, quando ele conclui o relato inicial dos eventos no Egito com as seguintes palavras: “ouvindo Deus o seu [do povo hebreu] gemido, lembrou-se da aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó” (Êx 2.24). Observe, então, que o fato de o gemido e clamor do povo terem chegado aos ouvidos do Senhor, não é o elemento determinante por si só; mas, sim, o fato de Deus ter se lembrado das promessas feitas aos patriarcas. Mais uma vez, à luz do que já tinha sido dito a Abraão, “lembrou-se de” não significa que o Senhor tivesse se esquecido daquilo que prometera há tanto tempo, mas aponta para o período determinado quando todas essas promessas voltariam a ocupar o centro das atenções de Deus. Aquilo que foi manifestado ao patriarca Abraão numa perspectiva escatológica estava, nos dias do êxodo, começando a se tornar realidade. Mais uma vez, Moisés parece passar no teste da tradição.

Há três perguntas que resumem o que vimos até aqui:

1) Como anda a nossa atenção para com o que Deus está fazendo em nosso meio?
2) Como anda a nossa devoção em resposta àquilo que Deus requer de nós em sua palavra?
3) Qual tem sido a tradição com a qual temos mais e mais nos identificado?

Daniel Santos
https://danielsantosjr.com/2016/06/05/uma-pegadinha-para-testar-moises/

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