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O Que é o Evangelho?

Segunda, 02 Janeiro 2012 23:48

A morte do Mediador

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Desde os tempos do apóstolo Paulo, muitos consideravam a pregação sobre a morte de Jesus uma loucura: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem” (1Co 1.18, 23). Não é apenas nos dias de hoje que as pessoas se recusam a aceitar que Jesus precisava morrer para salvar o mundo. A ideia de que Jesus se sacrificou para substituir o pecador é rejeitada por muitos como algo inconcebível, animalesco e desprovido de sentido.

Eles argumentam, “Como poderia Deus matar o seu próprio Filho inocente pelos pecados dos outros? Como poderia isso ser aceitável diante de Deus? Que Deus é esse que se propõe a aceitar tal troca?” Daí o esforço antigo e moderno por encontrar outros modos de salvação, e outros significados para a morte de Jesus.

De acordo com o ensino da Bíblia, o pecado do homem levou Cristo a morrer para satisfazer a justiça de Deus. Esse tema é vital para a salvação; entendê-lo bem, portanto, é indispensável. A tendência atual é dizer que Jesus morreu para dar um exemplo. Alguns vão mais longe ao dizer que foi apenas o fracasso de um fracassado.

Neste artigo procuraremos demonstrar que a ideia da morte de Jesus pelos pecados não é algo absurdo, pois segundo a Escritura, ele morreu para cumprir uma missão que Deus lhe confiou: salvar o mundo por meio do seu sacrifício expiatório.

O caráter de Jesus como mediador esteve presente desde o início nas relações entre Deus e a criação. Porém, chegou o dia em que o mediador realizou a mais difícil das obras: pagar com o seu próprio sangue a dívida do ser humano perante a lei.


O Mediador da Aliança

O Cristo humano e divino veio para restabelecer o relacionamento entre Deus e os seres humanos. Um mediador somente é necessário quando existe algum conflito entre duas ou mais partes.

A função de um mediador é fazer ligação entre dois oponentes na tentativa de alcançar a paz. Quando dois oponentes não têm qualquer intenção de fazer as pazes, eles nem pensam em mediador. Isso mostra que o simples fato de existir um mediador na relação ser humano-Deus demonstra interesse da parte divina em resolver o impasse. Em geral, importa que o mediador seja neutro e tenha acesso aos dois lados. Ele precisa buscar o melhor para as duas partes envolvidas no conflito, e não pode favorecer uma em detrimento da outra.

A Escritura apresenta Jesus como o único mediador entre Deus e os homens: “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem””(1Tm 2.5; At 4.12). Como mediador, sendo Deus e homem ao mesmo tempo, Jesus consegue tratar com os dois lados, e procura o bem para as duas partes. Como Deus, ele consegue se aproximar de Deus e, como homem, consegue se aproximar dos homens.

O grande conflito a ser resolvido é a questão da transgressão do homem. O descumprimento humano em relação à lei de Deus que exige que a sentença de condenação seja executada. Jesus se colocou entre essas duas partes para fazer um acordo de paz. Porém, a paz somente pode ser alcançada se Jesus conseguir inocentar o ser humano.

O modo como Jesus fez isso não foi negando a existência do pecado ou minimizando a gravidade do mesmo, mas morrendo no lugar do ser humano, desviando a ira de Deus do pecador para si mesmo. Desse modo, os crentes podem ter, nas palavras de Paulo, “paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

Assim, sempre devemos ver a posição de mediador de Cristo em relação à salvação, pois como diz Hodge, “como o desígnio da encarnação do Filho de Deus era reconciliar-nos com Deus, e como a reconciliação das partes inimizadas é uma obra de mediação, Cristo é chamado de nosso mediador”.1 Cristo exerce o seu papel de mediador para a nossa salvação como profeta, sacerdote e rei. No Antigo Testamento, para benefício do seu povo, Deus concedeu aos seres humanos reis, sacerdotes e profetas. Cristo reúne os três ofícios na sua pessoa, e, portanto, consuma toda a obra divina de aproximação com o ser humano.


O ofício profético de Cristo

A grande função do profeta era anunciar algo da parte de Deus para o ser humano. O profeta não tinha uma mensagem de si mesmo para transmitir, ele transmitia a Palavra de Deus, a qual precisaria ter recebido de Deus anteriormente. O profeta comunicava a vontade de Deus ao povo por meio de admoestações, exortações, promessas ou ameaças. Jesus é o profeta por excelência.

Moisés, o grande profeta de Israel anunciou a vinda de um profeta que devia ser ouvido: “O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás” (Dt 18.15). Quando as pessoas viram os milagres de Jesus, especialmente a multiplicação dos pães e dos peixes, declararam: “Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo” (Jo 6.14). Não há dúvida de que eles estavam pensando na promessa de Moisés. Pedro entendeu que o anúncio de Moisés se referia a Jesus, e deixou isso bem claro no seu primeiro sermão: “Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser” (At 3.22).

O Novo Testamento diz que todos os profetas do Antigo Testamento eram movidos pelo Espírito de Cristo, ou seja, era o caráter profético de Jesus que dava aos profetas a revelação, conforme as palavras de Pedro na sua Primeira Epístola: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam” (1Pe 1.10,11). Ele está dizendo que os profetas puderam antever as coisas futuras porque o Espírito de Cristo estava neles e lhes concedia a revelação.

Como profeta, Jesus tem a grande função de revelar o caráter do Pai. João diz: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). Jesus revelou o caráter do seu Pai, especialmente por meio do seu ensino. Suas explicações sobre Deus, bem como o seu amor, a sua misericórdia, a sua graça, a sua justiça, a sua santidade, o seu propósito, a sua natureza e pessoa, foram manifestações do seu ofício profético. Cristo é a eterna sabedoria do Pai, ele se tornou o tradutor de Deus para a raça decaída, que não conseguia falar a linguagem de Deus.

Tentar entender Deus à parte de Cristo é como tentar entender uma nação estrangeira sem um embaixador. Cristo disse: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Jesus precisava ser Deus, para poder falar a verdade sobre o Pai, e, ao mesmo tempo, precisava ser homem a fim de que entendêssemos o que ele estava dizendo. Cristo é a ponte que liga o finito ao infinito, a sua cruz liga os céus à terra, atravessa o imenso abismo entre o bem e o mal, entre a santidade e a iniqüidade. Lloyd-Jones está certo em assegurar a importância disso, pois de fato “uma parte de nossa salvação consiste em nossa recepção desse conhecimento que nosso Senhor nos tem comunicado”.2

Desse modo, o mediador estava fazendo a ponte entre Deus e o ser humano, revelando-nos um pouco da maravilhosa pessoa do Pai. Toda a revelação está, de certo modo, na pessoa de Cristo como profeta. Assim, de fato, “desde o início, tanto em seu estado de humilhação quanto de exaltação, tanto antes quanto depois do seu advento na carne, Cristo executa o ofício de profeta ao revelar-nos, por meio de sua Palavra e seu Espírito, a vontade de Deus para nossa salvação”.3

Deus ordenou aos homens, no monte da transfiguração que ele fosse ouvido (Mt 17.5). Se ele devia ser ouvido é porque de fato é o portador da revelação. Na pessoa de Cristo, segundo Paulo, estão escondidos “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3), e nas sábias palavras de Calvino “fora dele não há nada que valha a pena conhecer”.4


O ofício real de Cristo

Em seus três ofícios, Jesus age como mediador entre Deus e os seres humanos: “Como profeta ele representa Deus para com o homem, como sacerdote, ele representa o homem na presença de Deus; e como Rei, ele exerce domínio e restabelece o domínio original do homem”.5

Cristo é rei supremo sobre todas as coisas desde toda a eternidade, mas isso diz mais respeito a seus atributos de soberania. Quando pensamos no ofício real de Cristo, estamos nos referindo ao governo que ele exerce a partir de sua obra na cruz. Embora Cristo seja rei desde sempre, depois da sua morte e ressurreição, ele foi mais uma vez coroado, agora como aquele que tem em suas mãos o destino do mundo para efeitos redentores. Evidentemente, trata-se de um reino espiritual.

João descreve essa cerimônia de coroação de Jesus nos capítulos 4 e 5 do Apocalipse, quando Jesus, descrito por um lado como um Cordeiro (Ap 5.6) e por outro como o Leão da Tribo de Judá (Ap 5.5), toma o livro da mão direita do que está assentado no Trono (Ap 5.7), e começa a abrir esse livro que contém os acontecimentos que consumam o plano redentor de Deus para o mundo. Os efeitos dessa coroação levaram Jesus a dizer: “Toda autoridade me foi dada nos céus e na terra” (Mt 28.18). Aquele que desceu do céu, se fez homem, padeceu a mais terrível das mortes, agora voltou a seu lugar de glória e assumiu um posto ainda maior de autoridade” (1Tm 3.16).

Paulo narra toda essa trajetória de Jesus na sua carta aos Filipenses, numa passagem que bem poderia ser um cântico dos primeiros cristãos:

Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.6-11).

A humanidade (seu povo) participa dessa glorificação, pois Cristo é o seu representante, e, por causa dela, ele assumiu o posto mais alto do universo, para ajudá-la e sustentá-la até a consumação de todas as coisas. É nesse sentido que Cristo é chamado por Paulo na carta aos Efésios de “cabeça da igreja” (Ef 1.22), estando assentado “acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1.21,22).

Ele governa todas as coisas para benefício da sua igreja. Seu governo é a garantia de que a redenção finalmente se consumará, e de que sua morte não foi em vão.


O ofício sacerdotal de Cristo

De todos os três ofícios, o sacerdotal é o que se relaciona mais diretamente com a expiação. O sacerdote se apresentava perante Deus para interceder pelo povo. A função do sacerdote era “oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados” (Hb 5.1).

No Antigo Testamento, quando os homens pecavam, precisavam se dirigir ao sacerdote que os ajudaria na oferta do sacrifício pelo pecado. Como sacerdote, a função de Cristo é nos reconciliar com Deus, oferecendo um sacrifício que desvie a ira de Deus de sobre nós. A diferença de Jesus em relação aos sacerdotes do Antigo Testamento é que Jesus é o sacerdote e a vítima simultaneamente.

Esse sacrifício foi, na verdade, o único sacrifício aceito, uma vez que todos os sacrifícios do Antigo Testamento dependiam dele para terem valor, e que, após isso, nenhum sacrifício mais deve ser oferecido. Os sacrifícios do Antigo Testamento eram

Tipos dos sofrimentos vicários de Cristo, e só obtinham perdão e aceitação de Deus quando eram oferecidos com verdadeiro arrependimento, e com fé no método de salvação usado por Deus. Só tinham significação salvadora na medida em que levavam a atenção do israelita a fixar-se no Redentor vindouro e na redenção prometida.6

Jesus consumou sacerdotalmente todo o sistema do Antigo Testamento. O autor aos Hebreus fala de maneira muito clara sobre a função sacerdotal de Jesus e de sua oferta: “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu” (Hb 7.26,27).

A auto-oferta de Jesus tem um valor incalculável diante de Deus. É o sacerdote perfeito que oferece um sacrifício perfeito. Isso nunca foi achado no Antigo Testamento e nem poderia ser. Por isso, o ofício sacerdotal de Cristo torna o seu sacrifício não só superior a todos os sacrifícios do Antigo Testamento, mas a própria razão por que aqueles sacrifícios tinham valor.

A obra sacerdotal de Cristo na terra é a base para a sua obra no céu. Assentado à destra de Deus, Jesus continua intercedendo pelo seu povo (Rm 8.34). O apóstolo João demonstra claramente esse entendimento: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1).7

Os advogados humanos tentam provar a inocência do acusado, mas Jesus sabe que os seus “clientes” não são inocentes. A defesa se baseia no fato de que Deus não pode punir um mesmo crime duas vezes. Se Jesus já pagou com o seu sacrifício o pecado do crente, a justiça divina não poderá mais condená-lo.


A justiça de Deus e o pecado do ser humano

A Bíblia não tem ilusões românticas a respeito do ser humano. O ensino bíblico é que, apesar de o homem ter sido criado em perfeita santidade, ele corrompeu-se completamente.

A primeira descrição bíblica que o próprio Deus dá sobre o homem depois da queda está registrada em Gênesis: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). Essa forte expressão “continuamente mau todo o desígnio do coração”, não deixa muita coisa positiva sobre o homem, pelo menos não aos olhos de Deus.8

Como diz o autor do Eclesiastes: “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29). Essa habilidade humana em ser astutamente falso e mentiroso recebe uma ênfase em Jeremias que diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr 17.9). Olhando sem preconceitos para esse versículo, percebe-se que ele está dizendo que nenhuma outra coisa do mundo consegue ser tão enganosa e desesperadamente corrupta quanto o coração humano.

Tão corrupto é o ser humano que ele consegue dizer do seu criador: ele não existe (Sl 14.1). O mesmo salmista diria: “Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem. Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.1-4).

A busca divina por alguém justo apresenta apenas resultados negativos, pois Deus vê algo comum em todos os seres humanos: o pecado. Como diz Schaeffer, “esta concepção da universalidade do pecado é o maior e mais genuíno nivelador da humanidade”.9 Todos os homens possuem essa marca terrível na própria vida; todos estão no mesmo nível.

Mesmo quando as pessoas ouvem o que foi exposto acima, muitas vezes elas ainda não se conscientizam da necessidade da morte de Jesus. Elas pensam: “Por que Deus não poderia simplesmente perdoar o pecador?” Em geral, se pensa assim: Se nós devemos perdoar os outros sem exigir nada dessas pessoas, então, por que Deus não poderia simplesmente perdoar os homens caso visse neles o arrependimento?10 Será que o seu amor não é suficiente para perdoar? Essa pergunta ignora duas coisas: O quanto o pecado é terrível e o quanto Deus é justo. Deus não tolera o pecado. Deus ama a justiça, mas odeia a iniqüidade (Sl 45.7).

Adão e Eva sabiam muito bem disso, pois antes que transgredissem, ouviram de Deus que no dia em que comessem da árvore iriam morrer com certeza (Gn 2.17). O estabelecimento da lei no Sinai deixou claro que a transgressão acarretava a morte (Êx 21.12-29; Lv 20.2-15; Nm 35.16-30). O Novo Testamento é ainda mais explícito: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

Para que a justiça de Deus seja mantida, o homem precisa ser condenado pelos seus atos. Esta condenação não pode ser outra senão a morte, ou seja, sofrer a morte de um criminoso, como o homem de fato é. Ou o homem morre a morte de um malfeitor e suporta o fardo de ser separado de Deus, ou Deus deixa de ser justo. Só quando temos isso em mente é que podemos entender a necessidade da morte de Jesus.

No plano de Deus, Jesus é enviado ao mundo, nasce como homem, cumpre integralmente os requisitos da lei de Deus e se oferece como um substituto para receber a condenação do homem, pois “nossos pecados eram o obstáculo que nos impedia de receber o dom que ele desejava dar-nos”.11 Como mediador, ele sofre a morte do transgressor que a lei de Deus exige.

Deus não pode passar por cima da sua lei sem ferir a sua própria justiça e, consequentemente, a sua divindade. Deus não pode perdoar como nós devemos perdoar. Nós perdoamos porque somos igualmente pecadores, e se deixarmos de perdoar estaremos, em última instância, negando o perdão a nós mesmos (Mt 6.14,15). Isso não ocorre com Deus. Ele é absolutamente justo e santo. Se ele tolerar o pecado, estará abrindo uma exceção que por fim o tornaria tão injusto quanto o homem.

Os ímpios perderão o seu tempo implorando pelo amor de Deus no Juízo Final, pois o seu amor não pode anular a sua justiça. O amor não pode leva-lo a transgredir a sua própria lei. Porém, foi justamente esse amor que levou Jesus a morrer na cruz para satisfazer a justiça divina (Jo 3.16). Só a morte de Jesus faz justiça ao caráter tanto amoroso como justo de Deus. Deus não quebra a sua justiça por amor; antes, ele cumpre a justiça em amor, pois como diz Murray: “De fato a graça reina, mas uma graça reinante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas também inconcebível”.12


A consciência de Jesus

Nos estudos teológicos modernos, às vezes nega-se que Jesus soubesse que precisava morrer, mas basta observar os Evangelhos para perceber que ele sempre teve essa consciência.

Quando pela primeira vez os discípulos liderados por Pedro reconheceram que Jesus era o Cristo, o mestre fez questão de lhes dizer: “É necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite” (Lc 9.22, Mt 16.21). É interessante que Jesus tenha dito: “É necessário”. Ele tinha o entendimento de que precisava morrer pelos pecados dos seres humanos.

Pedro, na mesma ocasião, se ofereceu para dissuadi-lo dessa idéia, conforme Mateus relata: “E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.22). A reação de Jesus foi imediata: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens”(Mt 16.23). A resposta de Jesus refletiu o entendimento de que pelo homem aquilo jamais aconteceria, mas por Deus, sim. Sua morte era necessária, era coisa de Deus, ele tinha plena consciência disso.

Jesus Cristo não veio enganado, ele tinha perfeita consciência do que teria de passar (Is 53). Jesus sabia que a sua vida de obediência espontânea ao Pai tinha como rota obrigatória a cruz. Ele sempre soube que não havia desvios nem atalhos, a cruz era a sua missão, a única alternativa para a salvação do seu povo. Jesus conhecia as profecias do Antigo Testamento, que, desde Gênesis 3.15, já indicavam as dores do Messias (ver Lc 24.26,46; Is 53.1-12; At 3.18; Jo 17.1-3; 1Pe 1.10,11).

Em geral, Jesus falou sobre sua morte nos momentos de maior glorificação aqui na terra. Ele fez isso quando os discípulos o reconheceram como Messias. É importante lembrar que eles esperavam um libertador político, e Jesus fez questão de dizer que a sua morte era necessária. Mesmo quando anunciava a sua segunda vinda gloriosa sobre as nuvens, (Lc 17.24), ele advertia: “Mas importa que primeiro ele [o Filho do Homem] padeça muitas coisas e seja rejeitado por esta geração” (Lc 17.25).

Ele tinha a noção clara de que o seu sofrimento precisava acontecer para se cumprir o que estava determinado: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido” (Lc 22.37).

Ele não só entendia que precisava morrer, como também a maneira como morreria e a razão: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado”(Jo 3.14). A serpente de bronze foi levantada sobre uma haste, como um antídoto contra a picada das serpentes que feriam o povo de Deus, por causa da rebelião (Nm 21.4-9). Jesus entendia que seria levantado como um instrumento de cura para os pecadores; a sua morte seria um antídoto contra o pecado.

Jesus sabia que a sua morte era necessária para implantar o reino de Deus no mundo. Por isso, mesmo sentindo a dor da partida e vendo a tristeza nos olhos de seus discípulos quando anunciava essas coisas, lhes disse: “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16.6,7). A partida (morte) de Jesus era necessária para que o Espírito Santo pudesse ser enviado e completasse a obra da redenção.

O momento em que Jesus demonstrou a maior consciência da necessidade de sua morte talvez tenha sido o seu maior momento de dúvida. Estamos falando do episódio do Jardim do Getsêmani. Nessa noite, todo o pavor do mundo caiu sobre ele. Jesus estava angustiado, não pelo que muitos gostam de enfatizar porque estivesse com medo do sofrimento físico, dos pregos, da agonia da morte ou do ridículo público. Por mais que essas coisas fossem terríveis, seu temor era por algo muito pior do que todas elas juntas.

Jesus se angustiava pela expectativa de receber sobre si o peso da maldição dos pecados dos homens e, por causa disso, ser abandonado por Deus. Em toda a eternidade, nunca houve um instante em que ele não pudesse contemplar o rosto amoroso de seu Pai, mas agora esse momento estava muito próximo. Daí suas palavras: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39).

Ele perguntou a Deus se não haveria alguma outra possibilidade de o mundo ser salvo, sem que precisasse enfrentar a cruz, mas ele mesmo sabia a resposta, por isso orou novamente: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade”(Mt 26.42). É evidente, portanto, que Jesus entendia a sua missão de morrer pelo mundo, como está claro em todas essas passagens.

Outras passagens dos evangelhos sinóticos demonstram a consciência de Jesus a respeito de sua morte expiatória. Por exemplo, Marcos 10.45: “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (ver Mt 20.28). Se Jesus sabia da necessidade da sua morte, é inimaginável que não soubesse o propósito dela. Se ele falou a seus discípulos do serviço, e falou do seu próprio ministério como serviço, é natural que ele estivesse pensando no cântico do servo de Isaías, e pensando no seu próprio chamado à luz disso.13

O mesmo pode ser visto nas palavras de Jesus em Marcos 14.24 (ênfase acrescentada): “Então, lhes disse: Isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos” (ver Mt 26.28). A evocação à questão da aliança é fundamental para entender o sentido do sangue derramado. O Deus que estabeleceu a aliança, e que assumiu a responsabilidade por ela diante de Abraão, foi o Deus que enviou o seu Filho para assumir a maldição da aliança. O próprio Deus assumiu a responsabilidade pelo cumprimento ou pelo não cumprimento da aliança.14 Agora, pelo sangue de Cristo, o mediador, a aliança poderia ser renovada. É nesse sentido que ela é chamada de nova aliança.

Essas passagens demonstram claramente a consciência de Jesus a respeito da sua morte e, como diz Warfield “as questões críticas que têm sido levantadas sobre essas passagens são negligentes”.15 Jesus sabia da necessidade de sua morte, e do motivo dela.


Justo e Justificador

A morte de Cristo foi necessária porque somente assim os seres humanos poderiam ser perdoados, sem que Deus deixasse de ser justo. Jesus morreu para conciliar a justiça e o amor de Deus.

Talvez a melhor explicação bíblica a respeito deste tema se encontre no capítulo 3 de Romanos. Há algo que Paulo deseja provar: Deus somente pode salvar o homem pecador por meio de Cristo Jesus, independentemente de obras da lei, e isso não desfaz a sua justiça. Nesse capítulo, Paulo faz questão de enfatizar a realidade do pecado de todos os homens: “Já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.9-12). Ele está citando o Salmo 14, que demonstra que todos os homens, sem exceção, são pecadores.

A questão é: os pecadores devem ser julgados e, como consequência, receberão a ira de Deus sobre si. Deus precisa fazer isso, caso contrário estará deixando de ser justo. Especialmente os judeus, poderiam argumentar: E os que estão tentando obedecer à lei? As pessoas pensam que, se buscarem obedecer a Deus, ao final serão salvas pela misericórdia de Deus, como se a boa intenção fosse suficiente. Paulo diz: Esse caminho é errado. A lei não foi feita para salvar, mas para apontar o pecado: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.19,20).

Que opção resta então? De acordo com Paulo, a opção da morte de Cristo. Ele diz: “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas” (Rm 3.21). A expressão “justiça” que Paulo usa, poderia sugerir que Deus iria punir os homens, mas Paulo está falando de um outro aspecto da justiça de Deus. É a “justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.22,23; ênfase acrescentada). Ele não está falando de uma justiça punitiva, mas de uma justiça que absolve, que inocenta.

A justiça, porém, só pode inocentar alguém que seja realmente inocente, e não é esse o caso do ser humano. O argumento de Paulo é que a justiça de Deus em Cristo, somente é possível “mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24). A palavra-chave aqui é redenção.

Paulo explica como funciona esta redenção: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.25,26). Esses dois versículos são o centro da argumentação de Paulo. O próprio Deus propôs a morte do seu filho, como uma forma de propiciação. A ideia de propiciação sugestiona algo que apazigua a ira de Deus.

O pecado humano como quebra da lei despertou a ira de Deus, e o sacrifício de Jesus apazigua essa ira. A questão da ira de Deus não é bem vista no meio dos estudiosos de inclinação liberal, pois eles vêm Deus apenas como amor. Baillie é dessa opinião: “Sua ira não deve ser vista como alguma coisa que precisa ser propiciada e assim transformada em amor e misericórdia, mas deve ser identificada com o fogo consumidor do amor inexorável de Deus em relação com os nossos pecados”.16 Certamente ele tem bastante dificuldade em compreender que Deus possa ficar irado contra os pecadores que ele mesmo criou.17

Porém, é um fato bem visível na Bíblia que a ira de Deus se dirige contra o homem pecador (ver Jo 3.36; Rm 1.18; 3.5; 9.22; Ef 5.6; Ap 14.10). O sacrifício expiatório de Cristo faz propiciação pelos pecados dos seres humanos que crêem, porque satisfaz o requerimento da lei de Deus de que o pecado fosse julgado e condenado, e assim, ele satisfaz a ira de Deus.

Na cruz, o pecado do homem é julgado e condenado na pessoa de Jesus. Isso cumpre o requerimento da lei de Deus e, segundo Paulo, explica também por que de Deus tolerou os pecados “anteriormente cometidos”. Ele está se referindo aqui aos pecados cometidos na Antiga Dispensação, ou seja, no Antigo Testamento. Precisamos lembrar que os pecadores do Antigo Testamento ofereciam sacrifícios pelos seus pecados. Estamos falando aqui do povo de Israel.

Esses sacrifícios não tinham poder, em si mesmos, de perdoar pecados (Hb 10.1). O fato é que eles apontavam para Cristo e, na morte de Cristo, encontravam sua razão de ser e sua eficácia. Por esse motivo, na explicação de Paulo, os pecadores do Antigo Testamento que os praticavam não foram punidos, e Deus não deixou de ser justo por causa disso.

Desde o início, Deus tinha “em vista a manifestação de sua justiça no tempo presente” (3.26). O tempo presente representa o momento do sacrifício de Jesus. Grudem argumenta: “Como Jesus carregava sozinho a culpa pelos nossos pecados, Deus Pai, o poderoso criador, o Senhor do Universo, derramou sobre ele a fúria de sua ira: Jesus se tornou objeto do intenso ódio e da vingança contra o pecado que Deus tinha guardado com paciência desde o início do mundo”.18 Cristo recebeu sobre si toda a ira acumulada de Deus.

Devemos pensar realmente que:

A cruz foi o cálice do castigo eterno, destilada da ira que estava sendo armazenada desde o pecado de Adão, concentrada numa poção terrível. O Filho bebeu o cálice da ira para que pudéssemos beber o cálice da salvação. E quando ele terminou seu cálice, não sobrou nenhuma só gota para nós que, de forma grata, recebemos o benefício da sua morte.19

Paulo continua: “Para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus”. Com a morte de Jesus, Deus continua sendo justo ao mesmo tempo em que justifica o pecador, a cruz não é algo que influencia o amor de Deus; antes, foi o amor de Deus que a produziu.20 Sem a morte de Jesus, se Deus justificasse o pecador estaria sendo injusto, e se o condenasse, estaria sacrificando o seu amor. A única maneira de estas duas virtudes divinas, o amor e a justiça, permanecerem intocáveis é por meio da morte de Jesus. Por essa razão, a morte de Jesus foi absolutamente necessária, pois ela é condizente com o caráter de Deus. Como diz Stott:

O modo pelo qual Deus escolhe perdoar os pecadores e reconciliá-los consigo mesmo deve, acima de tudo, ser totalmente coerente com o seu próprio caráter. Não é somente que ele deve subverter e desarmar o diabo a fim de resgatar os seus cativos. Nem é somente que ele deve satisfazer à sua lei, sua honra, sua justiça ou a ordem moral: é que deve satisfazer a si mesmo.21

Ao morrer na cruz, Jesus estava satisfazendo o caráter santo e justo de Deus, ao mesmo tempo em que estava dando vazão ao seu amor eterno. Nada demonstra de modo tão espetacular, e simultaneamente, estes dois atributos de Deus. A cruz demonstra de modo impressionante a justiça e o amor de Deus.


Conclusão

 

 

Apesar da descrença de muitos, Deus continua salvando os homens pela loucura da pregação do Cristo crucificado. A dificuldade das pessoas com a doutrina da morte de Cristo é devida a uma incompreensão do próprio caráter de Deus. Como diz Lloyd-Jones:

A dificuldade real que as pessoas têm com esta doutrina é geralmente devida ao fato de que todo o seu conceito de Deus é inadequado. Ignoram alguns aspectos do Seu caráter. Enfatizam só um lado, com a exclusão dos outros. Se elas tomassem a Deus tal como ele é e compreendessem a verdade acerca dele, suas dificuldades se desvaneceriam.22

Concluímos, portanto, que não havia outro modo de o homem ser salvo sem que Cristo morresse. A morte do mediador é a grande demonstração do poder, da soberania, da justiça e do amor de Deus.

Acima de tudo, cabe alegria e louvor a Deus por ter estabelecido o plano da salvação por meio do sacrifício de Jesus. Não devemos questionar o método de Deus, pois ele, na sua sabedoria, é o único que tem condições de estabelecer o que é certo.

Artigo extraído do livro Razão da Esperança escrito pelo Rev. Leandro Lima

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